quarta-feira, 2 de outubro de 2013

I changed my mind



Desfazer-me em partículas e partir com a brisa, todo o resto não me apraz. Seguro-me na borda da janela, azulejo, permito-me ir sem rumo, a consciência só se mantém pela espessura da beira, frio. A música em mim. O vento em mim. As palavras em mim. Nada em mim cabe.

domingo, 8 de setembro de 2013

O som do mar


Assisto o mundo dentro de um losango de vidro suspenso em palafitas e envolto em água azul, a cor pode ser do céu ou de um feixe de sentimento que deixo luzir em cada palavra que proclamo. Minhas poesias ecoam só pra mim. Preso em uma concha, eu repito o som do mar.

segunda-feira, 29 de julho de 2013

Murmurar


Não é apenas uma segunda-feira, clichê do mau-humor, estou numa negação plena de minhas não escolhas. Tenho gritado subconscientemente “quero sair daqui”, mas um “aqui” maior que um planeta.
Toda a sutileza me chama, a cortina dança ao vento, eu não posso ver. Devo fumar pra conseguir alguns minutos comigo, depois de tantos andares e e-mails a enviar.

Nem os parágrafos eu estou preocupado em preencher. Só cuspo reclamações, já que até pra me ouvirem preciso pagar, prefiro registrar essa babaquice toda, reler depois e me achar um idiota.

sexta-feira, 26 de julho de 2013

Subjacência



Demarcaram espaços entre pessoas e egos, como se ambos fossem separados, e sobem no palco... Fecho todos os círculos de socialização, como calçar os pés em chinelos e pé de um em par de outro. Mesmo assim tenho o meu pé de distância dos outros, sem frente ou atrás, apenas outra direção. Vago sozinho no escuro com velocidade atenuada. Toda a arte me parece aquém. Sinto-me nada. E prefiro acenar para os outros de um reflexo no espelho.
Olhando do topo do prédio as pessoas se apegam a expectativas maiores que elas. Quem calculou onde está o céu?
Ali o SOL se põe e dizemos que é LÁ que vamos quando morrermos... Brincando de notas musicais... No casamento entre a luz e as trevas só restam as sombras, eu e você (ente qualquer). Minhas crenças, de um jeito ou de outro, estão mais distantes da verdade. Os sonhos da madrugada são o princípio da minha não tangência. Como uma estrela que na verdade só é luz. Assim enxergo o que é céu. Talvez seja um som, apenas talvez.
Dou saltos mortais. Caminho quilômetros no vento. Ando em ambientes abarrotados. E no escuro aonde eu estou? Talvez, apenas talvez, eu esteja preso nesse corpo; e se eu disser que toda a nossa galáxia faz parte de um átomo de um corpo maior? Serei queimado em praça pública ou me farão de mendigo?
Tenho que pagar para ser artista? Ou vender minhas ideias pra ter pão?
Estou vagando no escuro por não saber agir.
Muitos brigam pra protagonizar a trama. Eu só quero um ponto de encontro entre os meus sentimentos e os dos outros. Ser a leitura dos traços do mapa do nosso cérebro e mostrar caminhos que mal Freud aguentou pisar. Quero ser formador de opinião coesa. Quero proporcionar a própria evolução. Quero ser a nova era, mas não uma instituição, uma religião, uma estrela e/ou qualquer porra que seja... Talvez, apenas talvez...
E por isso acho graça, dou risadas por dentro de uma mascara, de outros brigando por colocação. Quem pode chamar de inferior aquele que não decorou a tabuada? Você está usando a tabuada decorada pra que mesmo? Tatuou-a no braço? Enquanto muitos calculam o "x" da questão eu estou recolhendo penas pra um dia me jogar de cima de um penhasco e pousar no chão com segurança.
Minha linguagem é subjacente, eu bem sei, mas desde que eu voe, outros poderão também.




sábado, 20 de julho de 2013

A árvore na janela, na tv


Eu me vejo assim. Parado. Entre ar e raios languidos de sol. Corpo no ar, sem chão, sem roupa, sem restrição. Eu quero ser a construção de uma nota musical, e nem fito quem quer que seja diretamente no olhar, não me descobrem. Sou uma exposição de mim, mas o que há dentro vibra e reverbera em outra frequência. O externo não me compreende. Sigo regras de uma cultura falida. E os sentimentos, meu caro? Banho-me para que não sintam o cheiro do desespero, portas fechadas. O que a nuvem de calor sabe fazer além de dançar? Estou buscando fugas em todos os detalhes dos cômodos da casa. Que seja nos azulejos e nas brechas do piso, menos em mim, chega de mim.
Tem uma árvore do outro lado da rua, minha janela só televisiona esse canal, galhos secos e asfalto. Eu a entendo. O espaço que limitaram a ela não a permite crescer, ela quebra o asfalto, porém a podam. Ela não consegue fingir seu descontentamento. Mesmo assim ela se permite florir às vezes, cores que ninguém soube explicar como que a terra pode trazer tamanho sorriso.
Meu céu continua quadrado. Evito andar na rua para não ser assaltado. Meus pensamentos são perigosos, pra isso me vendem muitos livros, musica, televisão, cinema, propaganda no metrô, som ambiente no elevador... Eu não consigo fingir o descontentamento. E ninguém sabe explicar como que sobre metal e eletricidade eu possa trazer tamanho sorriso.
Da minha mochila caem diamantes que servem para todos os tipos de dores, evito tomar. Na minha torneira saem tantos componentes que nem sei o que é água mais. Eu não posso ver a grama crescer na minha sacada, não há vida lá além da minha árvore pelada. Acho que ela virou uma amiga.
O que me prende?
Gritar.
Correr sem rumo.
Tanto faz.

terça-feira, 11 de junho de 2013

Desequilíbrio


A corda que me equilibra a razão vibra num acorde esquizofrênico, titubeio à loucura. Encontro-me rogando pragas e bênçãos ao vento, àquele que não me julga, e canto em uníssono, reverberando numa nota de dor, violino luzido, mas empoeirado em seu interior, um bumbo sem tambor, uma agulha que desperta navegando, fluindo e saindo do centro do meu peito trazendo um filete de sangue, o seu condutor.
Clamei salvação, mas o mesmo vento que não me julgou também não rogará por mim. Eu fui um devoto a ilusões. Hoje muito mais, me afundo em um palheiro e permito que o condutor leve tantas agulhas que meu corpo suportar.

Eu desequilibro. O som. As ondas. Talvez um só despertador, porque a dor sempre vem depois do despertar...

segunda-feira, 25 de março de 2013




Ei, sopro de alma, menina das palavras, pequena e grande mulher.

Você é a parte linda do reflexo do leito de um rio, quase uma música de tão sonora, reflexo sempre em distorções, naquele mesmo movimento, o “assíncrono no peito”, (mas quem se importa?), a noite você tem toda a lua como roupa. Queria não fazer desse momento único de festejo seu algo leviano pra te encher de palavras e palavras, são só palavras. Meu desejo de adornar a mulher bela com joias, uma coisa tão peculiar sua; toda a minha negação de vê-la presentear a outra reprimia o desejo de dizer que quem merecia ouro era você, a única dona do amor. Do toque de torpor. A saliva da perdição. Você, menina, você, mulher, você, Lureen.
Queria enviar, mesmo que por correspondência, todo o meu amor. Reinos. Rubis por serem vivos. Uma peça de artesanato. Um pedaço do rio que se formou na minha pia, (você bem sabe que onde vivo não tem água, só asfalto, daquela mesma poeira que fomos feitos e respiramos), foi nessa pia que vi o espelho, olhei-me e achei-te. Não tenho nada, nada além do meu pobre, velho e manjado papo. Nosso canto de vitrola que pula no mesmo risco do disco, mas que ouvimos sempre com um sorriso na quina dos lábios, como doces senis que apagam um passado em goles quentes, de coçar a ponta do nariz, em xícaras de porcelana, de alzheimer. E estamos aqui em mais um gole, um ano, e distantes o bastante pra escrever. Assim como sentados na mesma classe e trocando folhas de confissões, sempre distantes o bastante pra não se esquecer.
A madrugada está dizendo do amanhã e das obrigações, mas quero que leve esse “esforço” da noite mal dormida, como algo feito pra você, mas não acredite que é algo a ser valorizado, pois se perdi o sono foi porque não sabia o que dizer. Nada relevante. É sono.
Nunca me leve a sério já que nada posso te dar. Um dia poderei...

Mesmo que seja apenas palavra, Parabéns!
Eu amo você.

quarta-feira, 20 de março de 2013

Além das pautas



Escrevo como criança desenha.
Só não deixe ninguém saber.
Um desleixo de arte sem telha; causa, quem a conhece bem sabe que ela nunca vem do jeito que os outros costumam ver.
Não quero aprovações, trago do puro.
Só não rabisco porque a tecnologia me poda,
Assim como me restringiram às pautas do caderno.
"Não ultrapasse"
E desenhei nos cantos das folhas.
Como protesto
Do que detesto
"Não ultrapasse"
Assim sempre farei
Ultrapasse
Sempre farei

Hoje todos os reflexos me engolem



Ânsias arrebatadoras me cobram “abandone-o!”. Eu digo “SAI!”, mas ao te ver longe, silêncio. Batem na percussão, vibram os instrumentos de corda, esmurram o piano e nada. Silêncio. A cidade corre cheia, mas sem sustância. Sinto-me parte de um coletivo, entram e saem de estação, levam-me em pedaços, nada me sobra. Vezes mesmo quando se aproxima o vento com finalidade de prosear ele passa em silêncio. Tudo porque um dia disse amar. Avisaram-me que só tem como saber que amamos quando a ausência de algo desencadeia um buraco-negro. Entretanto não descobri o que amei demasiado pra desde pequeno me sentir do avesso, sendo engolido constantemente por algo que mal conheço, num movimento contínuo. Fico desenhando ficções na mente em dias de chuva: e se em todos os dias chuvosos os reflexos abrissem portais, alguém pisa na poça e seu reflexo troca com o do infinito que se formou naquela reflexão. Seríamos mais verdadeiros conosco sendo reflexos reais? Será que minto tanto por apenas viver dos reflexos ao invés de sê-los.

Você tirou de mim todo crédito da humanidade
Viver só pra mim tenho feito há tanto tempo
De repente percebo que com você
Faço vida
E Sem
Poesia

Coloquei os dedos hoje lentamente no espelho do banheiro, mesmo no horário de trabalho, estava esperando trocar de lugar. Nada aconteceu. Mentes sonhadoras não tem significância, o que conta é o sangue que escorre desse lado do espelho. E fico ouvindo na hora do almoço: “O buraco do espelho está fechado / Agora eu tenho que ficar aqui”, aquela voz pesada do Arnaldo Antunes parece aumentar o raio da circunferência daquele rombo no meu peito. A única coisa sobrenatural é a música, ela não precisa de reflexos brinca com ar, mesmo com o que eu respiro.

quinta-feira, 14 de fevereiro de 2013

Cor e selvageria



Piso firme na poeira da cidade enegrecida, como se passeasse com um tigre na coleira, e meus lábios vermelhos, cor e selvageria. Pouco me importa as mulheres conservadoras que cruzam e acariciam em alto e bom som o meu nome, por dentro delas, como preparar um cuspe e engoli-lo novamente, puta! E eu sou apenas uma cor, daquelas que ninguém desvia o olhar sem notar, o rabisco gritante em quadros contemporâneos, sou o que eu quiser ser. E o que alguém quiser que eu seja assim eu será. Uma brisa quente nos ouvidos que desencadeia um sopro frio na espinha dorsal. Imaginação. Vento.
As ruas são curvas, corpos, mãos, órgãos genitais. Meu ventre ferve. Quando mais nova acreditava que eu era doente, um distúrbio talvez. Tenho fome. Minha língua se molda nas curvas da obscenidade. Chamo. Grito. Quero que o mundo me invada. Quero invadir o mundo. Só em minha mente posso estender a fogueira e me queimar sem medo. Somente lá. Num sozinho fulgente. E agora sou consciente que todo animal guarda em si a necessidade de invasão, conhecemos nossa essência nesses momentos. Quando nua e de pernas abertas, a alma me deixa, sou o que realmente sou. Pó e cinzas. E por isso caminho como se houvesse facas ao invés de saltos na poeira enegrecida do planeta.
Poderia ter feito de qualquer lar metal em chamas, uma flâmula azul e, de certo, com muitos assim sucedi. Desejei e tive corpos apenas. Necrotério que guarda restos pra estudos e descarta as ilusões aos humanos. Mas para ser bom é necessário ser mau. Meu lar é o meio fio dividido por limusines e ferrares que cruzam sempre em lados opostos, e eu abandono passo sobre passo com os braços abertos numa infindável risca amarela da estrada. Lábios e vestido da mesma cor. Fui feita para matar vontade, sentir o gosto da comida e morrer de boca cheia.
Trago no peito apenas o cheiro do que chamam de amor. Porque choro todas as noites como um orgasmo contrário, um buraco negro. Deixo as lágrimas caírem como uma criança idiota. Chego a gemer. Passo minhas unhas enegrecidas por tintas nas maçãs do rosto na tentativa de recriar a sensação daquela barba áspera dele ao me beijar. Aquele homem. Aquele demônio. De olhos amendoados de cachorro faminto. Cabelo tão negro quanto à noite pode ser. Sua rigidez me fez tremer as pernas como ninguém jamais conseguiu. E se houvesse um revólver não sei em quem eu atiraria primeiro. Ele, os muitos dele no espelho, ou eu.
Não leve em consideração todo o meu altruísmo, soberba e lascívia. Não tenha piedade das minhas fraquezas, eu não me importo. E quem deveria se importar? Com tanta dor no mundo não há empatia o bastante pra todos. Crucifiquem aqueles que se compadecem. E me deixem queimar. Eu fodo pra esquecer, fodo pra rejuvenescer e fodo pra amar, do último só a mim.
Isso não é uma confissão. É quase uma conversa enquanto risco cores no meu rosto de fronte ao espelho. Pensamentos soltos. Eu deixo tudo a um homem só. Passo o batom escarlate. “Todo o homem é uma ilha” e eu aprisionei minha alma em meio a tanto mar. No intocável passado. Resto de pedras. Areia roubada da minha ampulheta. Sou do mundo inteiro, mas no escuro serei sempre a pele que você quis rasgar...

quarta-feira, 13 de fevereiro de 2013

Poesia ou prosa mal construída.

[Imagem: Em aquarela de Agnes Cecile]

Tempo seco. Tudo opaco. Melancolia que de tão irrisória começa a incomodar. Farpas de um descontentamento. Impotência. Desrazão.
Vagou tanto com o pouco que sobrou de si, hoje não encontra nada.
E nem as moléculas de dignidade suspensas no ar são suficientes para formarem nuvens, dispersam-se com um sopro de palavras.
A noite pede ouvidos, o escuro clama silêncio e o pior é que está. As sombras sempre obtiveram o que desejavam. E ele a reclamar. Nem mesmo o cigarro queima o bastante pra entontecer aquele que traga como se fosse o último fôlego debaixo d’água.
Involuir. O ato contrário à própria vida.
Definições vazias.

EU. ELE.
Tudo que construí.

As entrelinhas são mal vistas. Há os que fingem que não veem. E os que não fazem questão mesmo.
Agora posso usufruir dos planetas que se encaixam em todos os vãos dessas letras. Posso nomear de arte. Vangloriar meu ego ao reler. E constatar que não disse nada.
A arte é tão falsa quanto às cores visíveis. E pobre são os que nem cores veem. Note que as mesmas lorotas outros sussurram sobre o amor...
Preto, cinza e escarlate.

EU. ELE.
E tudo que construí.

sexta-feira, 1 de fevereiro de 2013

O que somos



O que é meu?
O que é nosso?
Vaguei pelos cantos procurando uma ponta usada de um cigarro mofado, acendi como se revivesse o que se foi e traguei tudo que era nosso. Não é a beleza dos quadros, das ruas do centro e nem do céu. Você mesma diz que fora feita da poluição e do desdem de São Paulo, sinto que caímos desse mesmo ventre. Eu usei de cicatrizes e você de palavras. Quem pode matar mais do que a língua. Eu me risquei com sangue pra te desenhar e agora ando descalço. Sem amarras...
Sim, somente você reparou nos rabiscos que eu pingava num caderninho e te mostrava como se fosse um tesouro. Aquelas crianças brincando de mostrar segredos. E morreram na impureza que fomos.
E por quê?
Por que acendo um cigarro?
Por que apago a luz?
Ainda tento reproduzir as sombras que habitávamos, mas com qualquer um.
Ninguém jamais observou os cantos das páginas, ninguém havia me apontado os rabiscos nas esquinas da Augusta. Nos tropeços do álcool. Nada. Minha primeira sessão de cinema com bancos de madeira.
Há tempo de mais nesse mundo que formei de pedaços seus. Há olhares de mais na parte intocada pelo vento, o mesmo que nos sopra como folhas secas. E temos nos misturado.
Vamos pincelando agora?
Vamos utilizar o que restou para recriar uma revolução nas paredes. Seja tinta, sangue, veneno ou amor.
Tudo que um dia fica já foi real, assim como o que já foi se torna religião. Já houvera partes nossas que não passavam de fagulhas. Já também incendiamos mundos. Hoje me sinto um flash, apago rápido.

quinta-feira, 31 de janeiro de 2013

O que me resta



Algo frágil se desgasta aos poucos. Os gestos dos outros já não mais tem valor. O mundo que me obrigo adentrar só me trás uma medíocre conta bancária. Deixa-me em cacos. Desgastando-me na essência do eu. Agora faço uso de um tanto desses segundos, após a meia noite, ouvindo alguma parte “corporativa” minha reclamar “você tem que levantar cedo”. E reluto. Reluto nos escombros do pouco de arte que me resta. Arte? O que me resta?

sábado, 5 de janeiro de 2013

Café, rum e o tal do Amor Perfeito


Retemo-nos mais um pouco na noite nublada e ofuscante dos restos de enfeites natalinos. Sentamo-nos numa cafeteria cheia de charme e detalhes nas paredes que tornavam o lugar mais agradável do que o meu próprio apartamento. Um dos serviços descritos no cardápio era o “amor perfeito”, algo que consistia na mistura de café, chocolate, rum e outros elementos, eu não sei quem foi o gozador que nomeou tal drinque, mas funcionou, porque ficamos a prosear e debochar da bebida. Eu ri internamente quando a garçonete falou para ele “nós não temos o chocolate europeu, então o seu amor perfeito não ficará igual” e ele “tudo bem”, com seu sorriso desconfiado, ela retomou “eu posso fazer um com chocolate normal, mas não sei se você vai gostar do amor perfeito assim”, eu ri audivelmente, os dois pararam pra me olhar procurando revisar no meu rosto em que parte do diálogo havia algo engraçado, assim voltei minha fronte a mesa como se eu estivesse perdido e eles à questão. “Eu quero um magnífico então...” apontou para o cardápio com o indicador. Rimos. Rimos. Nem a cafeteria ou a garçonete poderia nos oferecer um amor perfeito. Então ficamos a bebericar o “magnífico”. Chocolate, sorvete, café, silêncio, amor e um pouco de descaso, com o tempo, com as datas festivas, com o medo do próximo ano, com o resto. Rimos. Era o fim de mais um passeio a dois.

sexta-feira, 4 de janeiro de 2013

Puxo o fumo

[imagem : em aquarela de Agnes Cecile]

Eu deposito a essência de personagens em cavaletes e, cada um de uma cor, arremesso-os esperando o surgir da contemporaneidade da arte, a expressão que muitos cospem, exceto a minha que jamais será exposta. E continuo pintando as paredes, o chão, meu rosto e o meu corpo. Palavras de outros, gestos e olhares. Nada meu. Tantas cores não deveriam trazer felicidade?
Ando nas ruas com algo estragado dentro de mim, talvez seja um sinal de nascença na alma, ou simplesmente surgiu com tudo que absorvi do mundo; porém hoje parece estar latente o que enegrece meus dias. Vejo tanta bondade e oportunismo juntos que chego a confundir. Nada me atrai. E quem eu amo não enxerga minhas tonalidades. E “puxo o fumo”, aguçando fantasmas hediondos de um âmago pouco acessado, calo-me na tentativa de disfarçá-los, porém eles riscam meus olhos de vermelho e todas as pessoas ao meu derredor dizem que estou triste e pedem para que eu beba mais álcool, respire conforto na mesa de desconhecidos de um bar. Eu, os outros e meus demônios.