quarta-feira, 20 de março de 2013

Hoje todos os reflexos me engolem



Ânsias arrebatadoras me cobram “abandone-o!”. Eu digo “SAI!”, mas ao te ver longe, silêncio. Batem na percussão, vibram os instrumentos de corda, esmurram o piano e nada. Silêncio. A cidade corre cheia, mas sem sustância. Sinto-me parte de um coletivo, entram e saem de estação, levam-me em pedaços, nada me sobra. Vezes mesmo quando se aproxima o vento com finalidade de prosear ele passa em silêncio. Tudo porque um dia disse amar. Avisaram-me que só tem como saber que amamos quando a ausência de algo desencadeia um buraco-negro. Entretanto não descobri o que amei demasiado pra desde pequeno me sentir do avesso, sendo engolido constantemente por algo que mal conheço, num movimento contínuo. Fico desenhando ficções na mente em dias de chuva: e se em todos os dias chuvosos os reflexos abrissem portais, alguém pisa na poça e seu reflexo troca com o do infinito que se formou naquela reflexão. Seríamos mais verdadeiros conosco sendo reflexos reais? Será que minto tanto por apenas viver dos reflexos ao invés de sê-los.

Você tirou de mim todo crédito da humanidade
Viver só pra mim tenho feito há tanto tempo
De repente percebo que com você
Faço vida
E Sem
Poesia

Coloquei os dedos hoje lentamente no espelho do banheiro, mesmo no horário de trabalho, estava esperando trocar de lugar. Nada aconteceu. Mentes sonhadoras não tem significância, o que conta é o sangue que escorre desse lado do espelho. E fico ouvindo na hora do almoço: “O buraco do espelho está fechado / Agora eu tenho que ficar aqui”, aquela voz pesada do Arnaldo Antunes parece aumentar o raio da circunferência daquele rombo no meu peito. A única coisa sobrenatural é a música, ela não precisa de reflexos brinca com ar, mesmo com o que eu respiro.

Nenhum comentário:

Postar um comentário