Ânsias arrebatadoras me cobram
“abandone-o!”. Eu digo “SAI!”, mas ao te ver longe, silêncio. Batem na
percussão, vibram os instrumentos de corda, esmurram o piano e nada. Silêncio.
A cidade corre cheia, mas sem sustância. Sinto-me parte de um coletivo, entram
e saem de estação, levam-me em pedaços, nada me sobra. Vezes mesmo quando se
aproxima o vento com finalidade de prosear ele passa em silêncio. Tudo porque
um dia disse amar. Avisaram-me que só tem como saber que amamos quando a
ausência de algo desencadeia um buraco-negro. Entretanto não descobri o que
amei demasiado pra desde pequeno me sentir do avesso, sendo engolido
constantemente por algo que mal conheço, num movimento contínuo. Fico
desenhando ficções na mente em dias de chuva: e se em todos os dias chuvosos os
reflexos abrissem portais, alguém pisa na poça e seu reflexo troca com o do
infinito que se formou naquela reflexão. Seríamos mais verdadeiros conosco
sendo reflexos reais? Será que minto tanto por apenas viver dos reflexos ao
invés de sê-los.
Você tirou de mim todo crédito da
humanidade
Viver só pra mim tenho feito há tanto
tempo
De repente percebo que com você
Faço vida
E Sem
Poesia
Coloquei os dedos hoje lentamente no
espelho do banheiro, mesmo no horário de trabalho, estava esperando trocar de
lugar. Nada aconteceu. Mentes sonhadoras não tem significância, o que conta é o
sangue que escorre desse lado do espelho. E fico ouvindo na hora do almoço: “O
buraco do espelho está fechado / Agora eu tenho que ficar aqui”, aquela voz
pesada do Arnaldo Antunes parece aumentar o raio da circunferência daquele
rombo no meu peito. A única coisa sobrenatural é a música, ela não precisa de
reflexos brinca com ar, mesmo com o que eu respiro.

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