quinta-feira, 31 de janeiro de 2013

O que me resta



Algo frágil se desgasta aos poucos. Os gestos dos outros já não mais tem valor. O mundo que me obrigo adentrar só me trás uma medíocre conta bancária. Deixa-me em cacos. Desgastando-me na essência do eu. Agora faço uso de um tanto desses segundos, após a meia noite, ouvindo alguma parte “corporativa” minha reclamar “você tem que levantar cedo”. E reluto. Reluto nos escombros do pouco de arte que me resta. Arte? O que me resta?

sábado, 5 de janeiro de 2013

Café, rum e o tal do Amor Perfeito


Retemo-nos mais um pouco na noite nublada e ofuscante dos restos de enfeites natalinos. Sentamo-nos numa cafeteria cheia de charme e detalhes nas paredes que tornavam o lugar mais agradável do que o meu próprio apartamento. Um dos serviços descritos no cardápio era o “amor perfeito”, algo que consistia na mistura de café, chocolate, rum e outros elementos, eu não sei quem foi o gozador que nomeou tal drinque, mas funcionou, porque ficamos a prosear e debochar da bebida. Eu ri internamente quando a garçonete falou para ele “nós não temos o chocolate europeu, então o seu amor perfeito não ficará igual” e ele “tudo bem”, com seu sorriso desconfiado, ela retomou “eu posso fazer um com chocolate normal, mas não sei se você vai gostar do amor perfeito assim”, eu ri audivelmente, os dois pararam pra me olhar procurando revisar no meu rosto em que parte do diálogo havia algo engraçado, assim voltei minha fronte a mesa como se eu estivesse perdido e eles à questão. “Eu quero um magnífico então...” apontou para o cardápio com o indicador. Rimos. Rimos. Nem a cafeteria ou a garçonete poderia nos oferecer um amor perfeito. Então ficamos a bebericar o “magnífico”. Chocolate, sorvete, café, silêncio, amor e um pouco de descaso, com o tempo, com as datas festivas, com o medo do próximo ano, com o resto. Rimos. Era o fim de mais um passeio a dois.

sexta-feira, 4 de janeiro de 2013

Puxo o fumo

[imagem : em aquarela de Agnes Cecile]

Eu deposito a essência de personagens em cavaletes e, cada um de uma cor, arremesso-os esperando o surgir da contemporaneidade da arte, a expressão que muitos cospem, exceto a minha que jamais será exposta. E continuo pintando as paredes, o chão, meu rosto e o meu corpo. Palavras de outros, gestos e olhares. Nada meu. Tantas cores não deveriam trazer felicidade?
Ando nas ruas com algo estragado dentro de mim, talvez seja um sinal de nascença na alma, ou simplesmente surgiu com tudo que absorvi do mundo; porém hoje parece estar latente o que enegrece meus dias. Vejo tanta bondade e oportunismo juntos que chego a confundir. Nada me atrai. E quem eu amo não enxerga minhas tonalidades. E “puxo o fumo”, aguçando fantasmas hediondos de um âmago pouco acessado, calo-me na tentativa de disfarçá-los, porém eles riscam meus olhos de vermelho e todas as pessoas ao meu derredor dizem que estou triste e pedem para que eu beba mais álcool, respire conforto na mesa de desconhecidos de um bar. Eu, os outros e meus demônios.