quinta-feira, 14 de fevereiro de 2013

Cor e selvageria



Piso firme na poeira da cidade enegrecida, como se passeasse com um tigre na coleira, e meus lábios vermelhos, cor e selvageria. Pouco me importa as mulheres conservadoras que cruzam e acariciam em alto e bom som o meu nome, por dentro delas, como preparar um cuspe e engoli-lo novamente, puta! E eu sou apenas uma cor, daquelas que ninguém desvia o olhar sem notar, o rabisco gritante em quadros contemporâneos, sou o que eu quiser ser. E o que alguém quiser que eu seja assim eu será. Uma brisa quente nos ouvidos que desencadeia um sopro frio na espinha dorsal. Imaginação. Vento.
As ruas são curvas, corpos, mãos, órgãos genitais. Meu ventre ferve. Quando mais nova acreditava que eu era doente, um distúrbio talvez. Tenho fome. Minha língua se molda nas curvas da obscenidade. Chamo. Grito. Quero que o mundo me invada. Quero invadir o mundo. Só em minha mente posso estender a fogueira e me queimar sem medo. Somente lá. Num sozinho fulgente. E agora sou consciente que todo animal guarda em si a necessidade de invasão, conhecemos nossa essência nesses momentos. Quando nua e de pernas abertas, a alma me deixa, sou o que realmente sou. Pó e cinzas. E por isso caminho como se houvesse facas ao invés de saltos na poeira enegrecida do planeta.
Poderia ter feito de qualquer lar metal em chamas, uma flâmula azul e, de certo, com muitos assim sucedi. Desejei e tive corpos apenas. Necrotério que guarda restos pra estudos e descarta as ilusões aos humanos. Mas para ser bom é necessário ser mau. Meu lar é o meio fio dividido por limusines e ferrares que cruzam sempre em lados opostos, e eu abandono passo sobre passo com os braços abertos numa infindável risca amarela da estrada. Lábios e vestido da mesma cor. Fui feita para matar vontade, sentir o gosto da comida e morrer de boca cheia.
Trago no peito apenas o cheiro do que chamam de amor. Porque choro todas as noites como um orgasmo contrário, um buraco negro. Deixo as lágrimas caírem como uma criança idiota. Chego a gemer. Passo minhas unhas enegrecidas por tintas nas maçãs do rosto na tentativa de recriar a sensação daquela barba áspera dele ao me beijar. Aquele homem. Aquele demônio. De olhos amendoados de cachorro faminto. Cabelo tão negro quanto à noite pode ser. Sua rigidez me fez tremer as pernas como ninguém jamais conseguiu. E se houvesse um revólver não sei em quem eu atiraria primeiro. Ele, os muitos dele no espelho, ou eu.
Não leve em consideração todo o meu altruísmo, soberba e lascívia. Não tenha piedade das minhas fraquezas, eu não me importo. E quem deveria se importar? Com tanta dor no mundo não há empatia o bastante pra todos. Crucifiquem aqueles que se compadecem. E me deixem queimar. Eu fodo pra esquecer, fodo pra rejuvenescer e fodo pra amar, do último só a mim.
Isso não é uma confissão. É quase uma conversa enquanto risco cores no meu rosto de fronte ao espelho. Pensamentos soltos. Eu deixo tudo a um homem só. Passo o batom escarlate. “Todo o homem é uma ilha” e eu aprisionei minha alma em meio a tanto mar. No intocável passado. Resto de pedras. Areia roubada da minha ampulheta. Sou do mundo inteiro, mas no escuro serei sempre a pele que você quis rasgar...

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