sexta-feira, 1 de fevereiro de 2013
O que somos
O que é meu?
O que é nosso?
Vaguei pelos cantos procurando uma ponta usada de um cigarro mofado, acendi como se revivesse o que se foi e traguei tudo que era nosso. Não é a beleza dos quadros, das ruas do centro e nem do céu. Você mesma diz que fora feita da poluição e do desdem de São Paulo, sinto que caímos desse mesmo ventre. Eu usei de cicatrizes e você de palavras. Quem pode matar mais do que a língua. Eu me risquei com sangue pra te desenhar e agora ando descalço. Sem amarras...
Sim, somente você reparou nos rabiscos que eu pingava num caderninho e te mostrava como se fosse um tesouro. Aquelas crianças brincando de mostrar segredos. E morreram na impureza que fomos.
E por quê?
Por que acendo um cigarro?
Por que apago a luz?
Ainda tento reproduzir as sombras que habitávamos, mas com qualquer um.
Ninguém jamais observou os cantos das páginas, ninguém havia me apontado os rabiscos nas esquinas da Augusta. Nos tropeços do álcool. Nada. Minha primeira sessão de cinema com bancos de madeira.
Há tempo de mais nesse mundo que formei de pedaços seus. Há olhares de mais na parte intocada pelo vento, o mesmo que nos sopra como folhas secas. E temos nos misturado.
Vamos pincelando agora?
Vamos utilizar o que restou para recriar uma revolução nas paredes. Seja tinta, sangue, veneno ou amor.
Tudo que um dia fica já foi real, assim como o que já foi se torna religião. Já houvera partes nossas que não passavam de fagulhas. Já também incendiamos mundos. Hoje me sinto um flash, apago rápido.
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