[Imagem: Em aquarela de Agnes Cecile]
Tempo seco. Tudo opaco. Melancolia
que de tão irrisória começa a incomodar. Farpas de um descontentamento.
Impotência. Desrazão.
Vagou tanto com o pouco que sobrou
de si, hoje não encontra nada.
E nem as moléculas de dignidade
suspensas no ar são suficientes para formarem nuvens, dispersam-se com um sopro
de palavras.
A noite pede ouvidos, o escuro
clama silêncio e o pior é que está. As sombras sempre obtiveram o que desejavam.
E ele a reclamar. Nem mesmo o cigarro queima o bastante pra entontecer aquele
que traga como se fosse o último fôlego debaixo d’água.
Involuir. O ato contrário à
própria vida.
Definições vazias.
EU. ELE.
Tudo que construí.
As entrelinhas são mal vistas. Há
os que fingem que não veem. E os que não fazem questão mesmo.
Agora posso usufruir dos planetas
que se encaixam em todos os vãos dessas letras. Posso nomear de arte.
Vangloriar meu ego ao reler. E constatar que não disse nada.
A arte é tão falsa quanto às cores
visíveis. E pobre são os que nem cores veem. Note que as mesmas lorotas outros sussurram
sobre o amor...
Preto, cinza e escarlate.
EU. ELE.
E tudo que construí.

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