Eu me vejo assim. Parado. Entre ar
e raios languidos de sol. Corpo no ar, sem chão, sem roupa, sem restrição. Eu
quero ser a construção de uma nota musical, e nem fito quem quer que seja
diretamente no olhar, não me descobrem. Sou uma exposição de mim, mas o que há
dentro vibra e reverbera em outra frequência. O externo não me compreende. Sigo
regras de uma cultura falida. E os sentimentos, meu caro? Banho-me para que não
sintam o cheiro do desespero, portas fechadas. O que a nuvem de calor sabe fazer
além de dançar? Estou buscando fugas em todos os detalhes dos cômodos da casa.
Que seja nos azulejos e nas brechas do piso, menos em mim, chega de mim.
Tem uma árvore do outro lado da
rua, minha janela só televisiona esse canal, galhos secos e asfalto. Eu a
entendo. O espaço que limitaram a ela não a permite crescer, ela quebra o
asfalto, porém a podam. Ela não consegue fingir seu descontentamento. Mesmo
assim ela se permite florir às vezes, cores que ninguém soube explicar como que
a terra pode trazer tamanho sorriso.
Meu céu continua quadrado. Evito
andar na rua para não ser assaltado. Meus pensamentos são perigosos, pra isso
me vendem muitos livros, musica, televisão, cinema, propaganda no metrô, som
ambiente no elevador... Eu não consigo fingir o descontentamento. E ninguém
sabe explicar como que sobre metal e eletricidade eu possa trazer tamanho
sorriso.
Da minha mochila caem diamantes
que servem para todos os tipos de dores, evito tomar. Na minha torneira saem
tantos componentes que nem sei o que é água mais. Eu não posso ver a grama
crescer na minha sacada, não há vida lá além da minha árvore pelada. Acho que
ela virou uma amiga.
O que me prende?
Gritar.
Correr sem rumo.
Tanto faz.

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