domingo, 23 de dezembro de 2012

Um dia na multidão não é nada



Um dia na multidão não é nada.
Rosnam as pessoas dependuradas no metrô. Não há espaço na calçada. Cospem fumaça os escapamentos dos carros. O céu não sabe se chora ou se queima. Sobram desdentados e fétidos se refugiando sob bancos de praças e nos vãos dentro e fora da estação Sé.
E mais um dia na multidão e todos acham que não é nada.
O rapaz sabia que as máscaras que usaria no decorrer do dia trariam bons lucros na sua conta bancária no fim do mês. Vestiu-a, olhou no espelho, engravatou-se, abriu a porta da sua casa e foi. Misturar-se aos demais sem medo, sem fé e sem piedade, e usou essas três coisas para sentir receio da mulher suja que se aproximou com uma criança dependurada no colo displicentemente. Dois e três passos e ela: “moço, me vê dois real preu comê e dá pá minha fia, pur favô!”. Ele, desdém. Passos a diante e ainda se sentiu piedoso porque dessa vez, ao menos, não corrigiu mentalmente a língua que a pobre pronunciou, “definitivamente um dialeto das ruas”, pensou.
Virou a esquina. Sentiu-se sortudo por morar perto suficiente de seu trabalho, algumas quadras a frente. Entretanto algo estranho estava se acometendo. Não era algo hollywoodiano, a fotografia não era bela, não havia falas marcantes, nem atores bonitos e famosos. Eram mendigos, mais mendigos. Todos rastejavam e se humilhavam. Fétidos, feios, desdentados, cagados e largados. Na rua não havia carros, mas carroças e sujeira. Tudo parecia esquecido, mesmo o céu, que usualmente tem essa conotação, porém nesse momento era algo acentuado.
Note que cada mendigo tem sua peculiaridade: há as fêmeas que sempre deixam um ou dois peitos de fora e os machos que não hesitam em mostrar os bagos; há os que fazem penteados extravagantes com a sujeira parecendo um rastafári decadente; tem os que sempre carregam algo parecido com mijo para beber e cambalear e finalmente os que carregam crianças para parecerem mais respeitados. Criança na rua é sinal de respeito, sempre foi.

– Eh, pronto!
O rapaz ao virar a esquina se assustou, “cadê os humanos?”, todos que ali estavam eram andarilhos. Pensou ter entrado na Cracolândia por engano, mas aquela avenida era de um bairro nobre, “respeitado”. Sem se questionar duas vezes ele volveu no mesmo rastro, respirou fundo e pensou num outro caminho para chegar ao trabalho. Mas em qualquer direção não foi diferente, olhou ao derredor e constatou que a cidade estava infestada de mendigos. Ele se perturbou de tal maneira que começou a falar sozinho “O que é isso? Mendigo Parade? O mundo acabou?”, passou um sujo ao lado dele achando que era para confraternizar e respondeu: “O ser humano é teimoso!” depois não pronunciou nada além de murmúrios com cheiro de porre tratado com mais álcool. O rapaz disparou a correr. Correu como se estivesse num pesadelo de horror.
De tanto correr conseguiu chegar ao trabalho, mas se percebeu suado, mesmo nessa situação ele conseguiu se preocupar com suas glândulas sudoríparas. Respirou fundo, tentou enxugar o suor com um lenço e entrou no prédio. Nada ali era diferente, parecia um banheiro público, mas fingiu não notar e começou a calcular as palavras que usaria com seu chefe para explicar o seu atraso. Não subiu de elevador, pois havia uma família morando lá. Chegou a sua sala pelas escadas de emergência. Foi nesse momento que caiu em si a realidade: seu chefe estava somente trajando uma cueca suja deitado em um papelão no canto da sala. “Carlos?” disse o recém chegado espantado, o homem de meia idade fez pouco esforço pra olhar para aquela palavra que deveria ser o seu nome, mas assim que percebeu que tinha alguém o chamando sobressaltou: “Sai daqui! Que esse papelão é meu!”, segurou a cadeira quebrada que estava perto e arremessou contra o rapaz.
E adivinha?
O rapaz correu novamente. Dessa vez sem rumo, mas ainda sem fé e sem piedade.
Todos os lugares eram iguais, mesmo dentro dos estabelecimentos. Ele arriscou até entrar no MCdonalds, mas lá se deparou com um ser deitado no balcão, outro bebendo os sucos direto da máquina, comida no chão, farra de alguns sujos que brigavam sem roupa, molhos no teto e algumas crianças esfarrapadas brincando com as caixinhas vermelhas como se fossem casas de bonecas. Uma bagunça.
Entre tantos pedintes o dinheiro dele serviria pra quê? Correu. Desviou-se de crianças, adultos e velhos. Correu. Até que surgiu uma razão de viver, “Por que não se misturar?”, não deu tempo de analisar a morfologia do próprio pensamento na correria, começou a rasgar as roupas, amarrou a gravata na cabeça, jogou um dos sapatos bem longe, deitou no chão e rolou na sujeira. Alguns dos pedintes acharam inspirador e fizeram o mesmo, ao lado uma senhora continuou dizendo que o mundo ia acabar, outro grupo de homens atrás brigavam por um pedaço de pão. “Isso ai, meu filho!”, “Você é alguém na vida agora!” “Que exemplo” “glória a deus!”, todos que o assistiam o incentivavam.
Noite.
O céu resolveu esfriar e todos os primitivos se juntaram, um trouxe cobertor, outro um líquido marrom para bebericar numa garrafa amassada, outros alguns restos de comida, todos compartilhando. O jovem aceitou de bom grado dividir alguns goles do líquido estranho, pelo estado mental do homem que bebia, ele achou inspirador.
Resmungavam. Cochilavam sem soçobrarem com a vida, porque no asfalto gelado ela não pesa. Entre as esquinas nuas qualquer olhar não vê culpa. Nas mãos vazias a alma não se assenta, mas se esconde. E as crianças sempre acham algo pra brincar, seja com o lixo, seja com a cara de quem as assiste. A mansidão de quem não tem futuro é a libertação de quem inventa diversos compromissos com o mundo para morrer igual a todos os outros vivos; os que não fazem nada sabem o valor de sua inutilidade. Entre deus e o diabo cada um escolhe ocupar a mente com suas futilidades sem a obrigação de buscar significados falsos para respirar. Os únicos que sabem dizer sobre a existência são os loucos e os bêbados.
O rapaz então cutucou o mendigo deitado ao seu lado: “Por que todo mundo está assim?” o mendigo virou o rosto e respondeu “porque somos assim.” “eu não sou.” “Se você fosse o que você realmente é onde você estaria agora?” “Voltando do trabalho” “E pra quê?” “Pra ter dinheiro e me vestir melhor, comer melhor...” “Seu dinheiro não compra ninguém aqui” “Mas nessa bagunça não podemos viver!”. Alguns que estavam ouvindo a conversa resmungaram de desgosto da última afirmação do garoto. Um se levantou recolheu alguns gravetos e acendeu uma fogueira. Esse último questionou “Você, o de gravata na cabeça, gosta de trabalhar?” “Não”. E reinou o silêncio e o fedor.
Uma senhora se sentou no meio da multidão deitada, a mesma que vivia esperando o fim do mundo. Ela acabou descobrindo alguns que estavam compartilhando o pano com ela para se protegerem do frio, a brisa gélida era a mesma companhia para todos; então ela olhou para o céu e começou a cantar:
“Sai com as minhas palavras o vento
O fôlego morno de meu alento
Sai a alma, as escolhas de uma menina
Sai a fé, a própria vida nesse tormento
 E se choramos, ninguém se importa
E se gritamos, ninguém se importa
Porque o mundo nunca gira igual
E se girou, se girou, não foi por mal”
Era somente aquela voz, alguns se viraram para ouvi-la melhor, mas somente ela estava sentada propagando sua oração noturna. Seu tom era parecido com a de gatos que gritam pelos telhados a noite. Ninguém chorou, exceto o jovem ex-executivo, o homem deitado ao lado dele sussurrou “O ser humano é teimoso”, virou para o outro lado e dormiu.
O silêncio reinou novamente.
O rapaz ouviu no fundo um barulho. Abriu os olhos devagar.
O quarto era claro, as cortinas bruxuleavam com o vento gelado da manhã paulistana. Ficou espantado com a realidade do seu sonho. Percebeu-se descoberto, o cobertor importado estava no chão, mas já era tarde, seu relógio de cabeceira mostrava o atraso. Levantou-se correndo, banhou-se, vestiu a máscara, engravatou-se, abriu a porta de sua casa e foi. Com um peso morno de um resquício de um sonho cheio de ideologias no peito. Constatou a normalidade da cidade e foi sussurrando “Sai com as minhas palavras o vento”.
Na esquina estava uma mulher clamando por dinheiro com uma criança nos braços. O rapaz então a chamou. Deixou-as numa padaria próxima dali e pagou o tanto de comida que elas aguentaram comer.
Sim, ele fez tudo aquilo, não pela caridade, mas por culpa.
Mais um dia na multidão e ele tinha a certeza de que isso não era nada. O céu continuou esquecido... E o barulho da cidade parecia ritmar a mesma lamúria das almas das esquinas:
“Porque o mundo nunca gira igual
E se girou, se girou, não foi por mal”

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