Ruído do televisor.
Silêncio.
Ela se levantou pacífica e
se direcionou macia e silenciosa à cozinha, com um ar singelo como
se houvesse um vácuo em sua mente e aquela feição fosse o que
sobrara do nada.
– Quer
chá? – Disse ela.
–
Quero.
– Respondeu o rapaz com um tom desanimado, ele estava encolhido no
sofá feito um bebê no útero materno.
Ruído de louça. Alumínio.
Água. Corrente elétrica. Alumínio.
Silêncio.
– Você
é inteligente. – disse o menino ainda com a voz triste olhando
para a senhora que, através do balcão que dava para cozinha do
apartamento, dela era visível somente a parte superior.
– Por
quê? – Assustou-se ela com o elogio abrupto enquanto pegava duas
xícaras azuis no armário.
–
Porque
você nunca casou com ninguém.
Silêncio.
– Eu
não acho isso bom.
– Mas
é claro que é!
–
Ficar
sozinha foi uma escolha que fiz por medo. Tive medo de me envolver.
Tive medo de perder.
– Isso
é ótimo! Pois eu acabei de terminar meu namoro, mas mais parece que
alguém morreu e estou de luto.
– Com
isso você aprende melhor a viver. Enfrentar crises desperta
mudanças. – Disse ela com tom de sabedoria.
– Eu
não vejo vantagens. Tudo está cinza pra mim.
– É
só um momento...
– Você
sabe muito bem lidar com a solidão. Tem gente que fica com qualquer
pessoa, somente pra não ter que se ouvir.
– Eu
tive que aprender a me virar, a ter meu espaço. E eu sempre tive pra
mim que eu não ia ficar com quem eu não gostasse. Só porque a
sociedade impõe, sabe?
– Mas
hoje é mal visto quem se casa.
–
Antes
era o contrário.
– Eu
queria ser como você.
–
Como?
–
Assim.
Bem. Assim. Sozinha.
Som de riso feminino.
Silêncio.
Água fervendo.
–
Quantas
colheres de açúcar? – Perguntou a senhora com um pote branco na
mão.
–
Três.
Ela voltou à sala com as
xícaras azuis. Estendeu os braços alvos com algumas pintinhas
comuns em idosos.
–
Obrigado.
– Disse o rapaz segurando a xícara com cuidado para não queimar
as pontas dos dedos.
Ela se senta na outra ponta
do sofá negro.
Cheiro de hortelã.
Ambos bebem aos poucos
sentindo o vapor esquentar a ponto do nariz e olham para o
televisor.
Silêncio.
– E
eu queria ser como você. – Disse ela com os mesmos traços no
rosto e o mesmo sorriso do vazio olhando para o rapaz.

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