segunda-feira, 17 de dezembro de 2012

Um chá



Ruído do televisor.
Silêncio.
Ela se levantou pacífica e se direcionou macia e silenciosa à cozinha, com um ar singelo como se houvesse um vácuo em sua mente e aquela feição fosse o que sobrara do nada.
Quer chá? – Disse ela.
Quero. – Respondeu o rapaz com um tom desanimado, ele estava encolhido no sofá feito um bebê no útero materno.
Ruído de louça. Alumínio. Água. Corrente elétrica. Alumínio.
Silêncio.
Você é inteligente. – disse o menino ainda com a voz triste olhando para a senhora que, através do balcão que dava para cozinha do apartamento, dela era visível somente a parte superior.
Por quê? – Assustou-se ela com o elogio abrupto enquanto pegava duas xícaras azuis no armário.
Porque você nunca casou com ninguém.
Silêncio.
Eu não acho isso bom.
Mas é claro que é!
Ficar sozinha foi uma escolha que fiz por medo. Tive medo de me envolver. Tive medo de perder.
Isso é ótimo! Pois eu acabei de terminar meu namoro, mas mais parece que alguém morreu e estou de luto.
Com isso você aprende melhor a viver. Enfrentar crises desperta mudanças. – Disse ela com tom de sabedoria.
Eu não vejo vantagens. Tudo está cinza pra mim.
É só um momento...
Você sabe muito bem lidar com a solidão. Tem gente que fica com qualquer pessoa, somente pra não ter que se ouvir.
Eu tive que aprender a me virar, a ter meu espaço. E eu sempre tive pra mim que eu não ia ficar com quem eu não gostasse. Só porque a sociedade impõe, sabe?
Mas hoje é mal visto quem se casa.
Antes era o contrário.
Eu queria ser como você.
Como?
Assim. Bem. Assim. Sozinha.
Som de riso feminino.
Silêncio.
Água fervendo.
Quantas colheres de açúcar? – Perguntou a senhora com um pote branco na mão.
Três.
Ela voltou à sala com as xícaras azuis. Estendeu os braços alvos com algumas pintinhas comuns em idosos.
Obrigado. – Disse o rapaz segurando a xícara com cuidado para não queimar as pontas dos dedos.
Ela se senta na outra ponta do sofá negro.
Cheiro de hortelã.
Ambos bebem aos poucos sentindo o vapor esquentar a ponto do nariz e olham para o televisor.
Silêncio.

E eu queria ser como você. – Disse ela com os mesmos traços no rosto e o mesmo sorriso do vazio olhando para o rapaz.

Nenhum comentário:

Postar um comentário